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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Estudo do livro de Joel

O PROFETA JOEL


Infelizmente, este é um profeta sobre o qual há pouca reflexão. E é ele citado, na maior parte das vezes, pinçando-se suas declarações do contexto que ele vivenciou. Se houvesse um estudo sério para descobrir do que estava ele falando, sobre seu escrito e sua teologia, evitaríamos muitos problemas de interpretação do Novo Testamento. Para muitos, o Antigo Testamento é mera curiosidade arqueológica. Mas, quando é mal interpretado, os equívocos se projetam no Novo Testamento. É prova disto o fato de que muitas das grifes evangélicas, das invenções e esquisitices contemporâneas estejam com base (ou falta de base) no Antigo Testamento. Exegeses precárias e inusitadas e interpretação fragmentária ou atomizada (como Martin-Achard prefere chamar) de passagens ou incidentes, isoladas de seu contexto histórico, produzem doutrinas exóticas. Assim sucede com nosso personagem de hoje. Interpretações equivocadas de Joel produzem distorções teológicas sérias, do ensino neotestamentário. Com estas considerações iniciais, que são, ao mesmo tempo, advertência e estímulo, caminhemos por Joel. Sem dúvida que poderemos aprender dele.

UM POUCO DE SUA PESSOA


Não sabemos muito sobre este profeta. Há doze homens no Antigo Testamento com este nome, mas não podemos identificar o profeta com qualquer um deles. Seu nome, Yoel, significa “Iah é Deus”. Iah é a abreviatura de Iahweh. Seu pai se chamava Betuel, segundo alguns targuns, ou Petuel, conforme o texto hebraico que nos chegou à mão. Seu significado é “Deus liberta”. É bem possível que nosso personagem fosse de uma família piedosa, à luz do significado dos seus nomes. Parece ser um homem do campo, pela familiaridade que mostra com a agricultura. No entanto, mesmo sendo um agricultor, é um poeta. Conforme estudiosos da estilística literária hebraica, com exceção dos textos de 2.30 a 3.8, todo o livro foi escrito em estilo poético. Há muito de paralelismo e ritmo da poesia hebraica no escrito. As figuras de linguagem usadas por Joel mostram ser ele um homem de imaginação vívida. Ele emprega figuras fortes e usa muitas exclamações, como se vê no texto em português. Isto deve corrigir um equívoco que muitos, mesmo sem preconceito, nutrem. É que pensamos nos profetas como se fossem beduínos fanáticos ou ignorantes. Quando muito, julgamos que como eram pessoas vivendo numa época atrasada em relação à nossa, tais profetas foram primitivos e boçais. Esses homens foram geniais. Prova disso é que aqui estamos já entrados no terceiro milênio, aprendendo com eles, estudando o que escreveram. Dentro de cinqüenta anos, ninguém lerá meus livros. Existirão como relíquia, em bibliotecas poeirentas(pelo menos isso. rs). Mas, se mundo houver daqui a meio século, esses profetas continuarão a ser estudados. Porque foram homens geniais, dos quais Joel é um deles.

Há discussões sobre a data do livro, mas deixaremos esta questão de lado por não atenderem nosso propósito. Não há dados históricos identificáveis que nos permitam localizar seu tempo. Não há, no entanto, discussão sobre a integridade da obra e a autenticidade da autoria. Isso nos anima. Significa que estaremos caminhando por um livro sobre o qual não há dúvidas a respeito do teor textual.

UM POUCO DO SEU TEMPO

Independente da época em que situe o profeta, o cenário de Joel vai nos ajudar a entender a sua mensagem. Saber as circunstâncias em que ele viveu nos ajudará a compreender o que ele diz. Mesmo que não sejamos hegelianos, temos que concordar que um homem é sempre um pouco de produto de seu tempo. Ou reage ao seu tempo.

Há uma seca muito forte e uma praga de gafanhotos como cenários principais do livro. Para uma nação que dependia da agricultura e da pecuária para viver, isto era um sinal certo de grave crise econômica. É uma figura de juízo sobre o povo. Um tempo de fome se avizinha. A invasão de gafanhotos domina o cenário, mais que a seca. Três teorias pretendem explicá-la.

(1) Os gafanhotos não seriam reais, mas seriam uma figura de invasores como egípcios, babilônios, assírios e gregos. Embora respeite quem interprete desta maneira, a colocação dos gregos aqui dependerá de uma data mais próxima de nós, colocando o livro no período pós-exílico. Isso eu hesito em fazer.

(2) Os gafanhotos seriam criaturas apocalípticas, símbolo de exércitos invasores no final dos tempos. Joel estaria falando do nosso futuro e não do seu futuro. Estaria pregando para uma época posterior a nós e não para seus contemporâneos. Também respeito esta posição, mas ela invalidaria o restante do livro. Por que uma chamada ao arrependimento aos contemporâneos de Joel por causa de algo a acontecer 3.700 anos depois?

(3) Os gafanhotos seriam literais. Comedores de hortas, campos e lavouras. Eram o sinal de juízo divino sobre aquela geração, os contemporâneos do profeta.

Esta última interpretação me parece ser a mais viável porque a descrição feita por Joel é típica de uma nuvem de insetos. E jogar as ameaças do livro para um futuro recuado, tipo milênio dispensacionalista, não faz nenhum sentido dentro do esquema do profeta. Comentaristas como Bewer e Pfeiffer pensam que Joel falou de gafanhotos no primeiro capítulo e um outro autor, reescrevendo seu livro, décadas mais tarde, falou de criaturas apocalípticas no segundo. Mas o livro parece ser uma unidade literária, o que deixa tal teoria com pouca base. Não há nenhum indício, no texto, de que o livro seja produto de dois autores ou que tenha sido reescrito. É mais viável crer numa praga de gafanhotos literalmente.

A TEOLOGIA DE JOEL

Em vez de discutir a questão das ameaças divinas, como a seca e a praga de gafanhotos, pensemos no ensino global de Joel. Vamos analisar sua teologia e verificar no que ela implica com nossas vidas. Há alguns aspectos do pensamento de Joel que trazem uma extraordinária contemporaneidade e relevância para nosso tempo. Prestemos atenção neles, porque isso muito nos ajudará na nossa compreensão cristã.

(1) O primeiro aspecto a considerar, na teologia de Joel, é o lugar que Deus ocupa em seu pensamento. O livro, como diz Prinsloo, “é um livro teocêntrico” [2]. No livro, e por conseqüência, no pensamento de Joel, Deus é o autor das ações. A praga dos gafanhotos foi enviada por ele, como lemos em 2.11: “E o Senhor levanta a sua voz diante do seu exército, porque muito grande é o seu arraial; e poderoso é quem executa a sua ordem; pois o dia do Senhor é grande e muito terrível, e quem o poderá suportar?”. Também a remoção dos gafanhotos é obra de Deus, como se lê em 2.19-20: “E o Senhor, respondendo, disse ao seu povo: Eis que vos envio o trigo, o vinho e o azeite, e deles sereis fartos; e vos não entregarei mais ao opróbrio entre as nações; e removerei para longe de vós o exército do Norte, e o lançarei para uma terra seca e deserta, a sua frente para o mar oriental, e a sua retaguarda para o mar ocidental; subirá o seu mau cheiro, e subirá o seu fedor, porque ele tem feito grandes coisas”. É o Senhor quem exorta o povo ao choro e ao arrependimento, como vemos em 2.12-13: “Todavia ainda agora diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes; e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade, e se arrepende do mal”. É ele, Deus, quem decide que é tempo de julgar, mas é ele quem chama para a conversão, quem oferece a restauração, quem derrama o Espírito e quem anuncia a vitória final. Joel nos relembra dois pontos teológicos muito fortes que não podemos esquecer em nossa cultura e em nossa época: 1º) Deus é o Senhor da natureza; 2º) Deus é o Senhor da história. Numa sociedade secular, sabemos que a chuva vem por precipitação pluviométrica, e que bombardeando nuvens com nitrato de prata podemos fazê-las desaguar, que podemos combater a seca com açudes, e os insetos com veneno. Banimos Deus da natureza porque começamos a pretender dominá-la. O homem contemporâneo, diferente do homem do passado, não é escravo da natureza. Embora sofra seus caprichos, vem dominando-a. Assim fazendo, banimos Deus do mundo físico para a esfera da espiritualidade e da introspecção. Assim procedendo, retiramo-lo também da história, que passa a ser uma sucessão de acontecimentos sem nexo ou, quando muito, comandados por políticos. Joel mostra a presença e direção de Iahweh na natureza e na história. Ele tem o destino das nações em suas mãos. Não é um Deus fora do mundo. Embora não seja do mundo, ele está no mundo. Ele suscita gafanhotos, em 1.4 e no capítulo 2. Ele traz a seca, em 1.12. Ele move as nações no capítulo 3. Ele restaura o seu povo, no trecho final do livro (3.18-21). Tudo vem dele, tudo é feito por ele, tudo obedece a ele. A história tem um rumo, ditado por ele. Vai para onde ele quer que ela vá.

(2) O segundo ponto a se notar na teologia de Joel é a moralidade de Iahweh. Ele não é uma força ou uma energia cósmica. Não é um Deus impessoal. Ele tem propósitos morais porque ele é um Ser moral. É curioso que em nenhum momento Joel diga que o povo está sendo julgado pelos seus pecados, mas na chamada ao arrependimento, fica bem claro que houve alguma coisa de errada na conduta do povo. Este é exortado a se arrepender e, se assim fizer, “quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção?” (2.14). Isto mostra que Deus sustará seu juízo se o povo se arrepender. O juízo vem por causa de pecado. Judá esperava o dia do Senhor, o yom Iahweh. Assim se designava o dia em que o Eterno entraria na história para castigar os ímpios. Seria um dia de acerto de contas de Iahweh com os ímpios e de exaltação de Israel sobre esses ímpios e sobre o mundo. Mas, em 1.15, o yom Iahweh está perto para Judá e não para as nações pagãs. Não seria dia de triunfo para o povo de Deus, mas dia de juízo. Pensemos nisto: esperamos o dia do juízo para ver o mal aniquilado. Pensamos que seremos examinados e que temos pecado em nossa vida? Consideramos que o juízo começa pela casa de Deus, como diz I Pedro 4.17: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus” ?

(3) O terceiro aspecto a se considerar na teologia de Joel é a compaixão de Iahweh. Em 2.18 lemos o seguinte: “Então o Senhor teve zelo da sua terra, e se compadeceu do seu povo”. Iahweh se mostrou zeloso e teve compaixão. Não é um termo hebraico comum, o que aqui é empregado para “compadeceu”. É hemel, que aparece, como verbo, em Êxodo 2.6, mostrando que a filha de faraó teve compaixão do menino Moisés, vendo seu choro no cesto, no rio. Parece ser um verbo para uma compaixão materna. O sentimento de Deus é o de uma mulher, com senso de maternidade, que vê um bebê prestes a morrer. Isto é muito bonito. Deus tem a firmeza carinhosa de um pai, e o coração terno de uma mãe que vê o filho em perigo. Costumamos ouvir que o Deus do Antigo Testamento é o Deus da ira e do juízo. Lembrem-se de Marcião, com seu conceito do Demiurgo e como Jesus venceu o Deus de ira do Antigo Testamento. Mas o Deus mostrado no Antigo Testamento também é cheio de misericórdia. É Pai, como Oséias nos mostrou. Tem sentimentos maternos, como Joel deixa entender. Não estou endossando a teologia feminista nem o conceito da maternidade de Deus. Nada disso. Acho até essas considerações risíveis, uma adaptação da Bíblia à nossa cultura, à nossa maneira de ver o mundo. Não podemos adaptar a Bíblia à nossa cultura, mas analisar nossa cultura à luz da Bíblia. Estou mostrando que Deus tem sentimentos e sentimentos fortes, como a da mulher que vê um bebê que está prestes a morrer.

(4) A necessidade de conversão é o quarto aspecto teológico importante, em nosso profeta. Nos dias em que vivemos, Deus é mostrado como um papai noel bonachão, com um cesto cheio de presentes para os meninos bem comportados, aqueles que vão a uma igreja do neopentecostalismo e entregam suas ofertas para campanhas de fogueiras santas, trízimo, cimento ungido, etc... Podemos ouvir programas que são declarados como sendo evangélicos, pela televisão e pelo rádio, por meses a fio sem ouvirmos falar, uma vez sequer, da necessidade de arrependimento, de abandono dos pecados e de mudança de vida. A conversão foi deixada de lado em muitos púlpitos e substituída pela adesão ou pela contribuição. Cristo foi substituído por Abraão e a cruz que o cristão deve tomar para seguir a Cristo foi esquecida e em seu lugar se oferece em trono em troca de ofertas e assistência aos cultos com contribuições regulares. A ética foi suprimida e em seu lugar entrou a prosperidade como tema dominante das pregações. Os dias pré-Lutero, de venda de indulgências e de compra das bênçãos de Deus, estão de volta. “Todavia ainda agora diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto”, diz Iahweh em 2.12. Ele não quer liturgia. Ou seja, não está interessado em fraseologias como algumas esquisitices verbais que ouvimos hoje em dia. Ele quer ação que mostre quebrantamento e não rito apenas. É para rasgar o coração e não as roupas, como lemos em 2.13: “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes; e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade, e se arrepende do mal”. Rasgar as roupas era um ato litúrgico. Ele não quer liturgia, quer quebrantamento. É para o povo chorar os seus pecados, como lemos em 2.17: “Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, entre o alpendre e o altar, e digam: Poupa a teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?”. Não é rito nem são palavras. Não é externo, é interno. É sentimento. Podemos criticar o pietismo por sua internalização da fé religiosa, mas esta postura tem respaldo entre os profetas. É a conversão do homem que faz Deus mudar o juízo em bênção. Não é a contribuição nem é a liturgia. É o reconhecimento de que a vida está errada e deve ser mudada. Embora a contribuição seja necessária e, muitas vezes seja evidência de uma conversão, é conversão e não contribuição que Deus pede. Pode-se dar dinheiro sem dar o coração. Pode-se praticar ritos sem ter consciência da presença de Deus. O coração contrito vale mais, já ensinou Davi, no Salmo 51.17: “O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus”. O sacrifício era a forma mais elevada de culto no Antigo Testamento, mas o que mais interessa ao Senhor é o coração quebrantado. Deus não espera culto litúrgico, mas quebrantamento de vida. Muitos cultos nos fazem bem, mas não mudam nossa vida. Muitos cultos são apenas pândega espiritual. Ri-se, gargalha-se, dança-se, batem-se palmas, pula-se, mas não há quebrantamento, não produzem mudança de vida, não exortam à santidade. Alguém dirá que o culto cristão é de felicidade e alegria porque nele o povo de Deus celebra sua salvação. Mas só pode se alegrar, rir e celebrar quem primeiro gritou como Isaías: “Ai de mim, que estou perdido!”. A igreja contemporânea tem muita festa e pouco quebrantamento, busca o poder humano, principalmente o político, mas não busca a santidade, não enfatiza a correção de vida. Isto é trágico!

(5) O quinto aspecto na teologia de Joel é o derramamento do Espírito Santo (2.28-32). Em Atos 2 Pedro emprega a linguagem de Joel. Usa-a para refutar a acusação de que os discípulos estivessem sob o domínio do álcool e entende que o tempo anunciado por Joel havia chegado. É evidente que nossa posição doutrinária nos fará entender este versículo pela ótica em que fomos educados. Mas numa análise desdenominacionalizada, podemos observar alguns aspectos fundamentais. Um deles é que o anúncio é que o Espírito seria derramado sobre todos, como diz 2.28: “Acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne”. Não é sobre uma elite espiritual ou agraciada com dons, mas sobre todos. Joel não está profetizando o surgimento do pentecostalismo moderno, mas o sacerdócio universal de todos os fiéis, doutrina básica do protestantismo e dos evangélicos históricos de teologia elaborada e não fragmentária. No Antigo Testamento, o Espírito era de uma elite: profetas, reis, juízes ou pessoas como o habilidoso Bezaleel, de Êxodo 31, um sujeito que fazia de tudo. O período vétero-testamentário era de sacerdotalismo. O período neotestamentário, apontado por Joel, é diferente. Todos são sacerdotes, pois todos têm acesso a Deus. É um tempo de universalismo na possibilidade de relacionamento com Deus. O segundo aspecto nesta doutrina de Joel é que este período é marcado pela justificação pela fé: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (2.32) é empregado por Paulo em Romanos 10.13. Não há justificação por ritualismo nem por etnia. Deus não salva alguém pela sua raça. A salvação é pela fé. “Invocar o nome” é uma expressão técnica que é mais que dizer o nome ou clamar pelo nome. É colocar-se sob o nome. Esta era uma das maneiras de se falar sobre Deus. Os hebreus não pronunciavam seu nome, que é sagrado. Chamavam-no de mc h, HA SHEM, ou seja, O NOME. O período que Joel aponta é o do Novo Testamento. E os sinais que ele mostra como autenticadores da época? Simplesmente linguagem típica do pensamento hebreu: as intervenções de Deus na história, os seus yomyn ha Iahweh ou, para usar a linguagem grega, seus eschatons, são adornados com esta linguagem. É um componente que mostra ser algo especial, singular. Vivemos na época que Joel mostrou: o grande dia, o dia em que o Senhor derramou o Espírito para sempre, e ele ficou conosco para sempre. Isto é resposta à oração de Jesus, em João 14.16: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Ajudador, para que fique convosco para sempre”. O Espírito não é um ioiô, que vai e volta. Veio para ficar conosco para sempre. Ele inaugurou a época da igreja instituição, em que todos temos acesso a Deus e somos salvos pela fé. Joel, portanto, não pregou o movimento carismático. Pregou a chegada do tempo da graça, o tempo da universalidade da salvação, sua acessibilidade a todos os homens. Jesus tornou isto real e a igreja começou a pregar isto no dia de pentecostes.

UMA APLICAÇÃO DE JOEL PARA NOSSO TEMPO

Já comentamos a teologia de Joel e deixamos claro que ela traz implicações para o nosso cotidiano. Mas vamos ser mais explícitos na apropriação do ensino do profeta para nossa vida.

Um ponto a observar é o lugar que Deus ocupa em nossa vida. É fácil amar prédios, regulamentos, instituições. Amamos toda essa tranqueira e pensamos que estamos amando a Deus. Pensamos que as coisas são ele. Os batistas temos uma tendência muito forte à institucionalização. Temos (ou tivemos o bom senso de esquecê-lo?) até um dia para testemunho, o dia 12 de outubro, escolhido, creio eu, para fazer pirraça à Aparecida e à Igreja Católica. O dia de testemunho batista devem ser todos os dias do ano. Ter instituições, amar e servir instituições, não significa conhecer, amar e servir a Deus. Cuidado com o equívoco, que é razoavelmente praticado em nosso meio. Podemos lutar por coisas, pensando que estamos servindo a Deus. Cito aqui, um pregador e escritore que admiro muito, Martin Lloyd-Jones:

Precisamos parar de pensar na Igreja como uma assembléia de instituições e organizações, e precisamos voltar a este conceito de que somos o povo de Deus. É por amor do Seu nome, e porque Seu nome está sobre nós, que precisamos suplicar pela Igreja – sim, como também por sua glória e honra, porque ela pertence a ele. [3]

Não confundamos as coisas: devemos buscar a glória de Deus e não a de instituições, prédios e coisas. Não misturemos Deus com toda a parafernália que edificamos para viabilizar a pregação do evangelho. Outro ponto a observar é a moralidade de Deus. Há líderes, felizmente poucos, que parecem não ter o temor de Deus, com determinadas atitudes que empreendem. Quando sabemos de desvio de dinheiro, de malversação de verbas, de falta de seriedade no serviço, ficamos impressionados. Como é possível? Há igrejas que se portam mais como empresas humanas, buscando poder e prestígio social, buscando riquezas, que como comunidades de pessoas redimidas pelo sangue de Cristo. “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos” é a frase que serve de chave hermenêutica do livro de Eclesiastes. E que deve estar sempre em nossa mente. Cristo não aboliu esta declaração do filósofo do Antigo Testamento.

E graças a Deus que sua compaixão continua. É ela que nos alimenta a fé, que nos leva a seguir no serviço, mesmo com nossas falhas e é ela que o mundo deve conhecer.

Outro aspecto: preguemos a chamada à conversão. O evangelho ôba-ôba, tipo goma de mascar, que se mastiga, mastiga, mantém a boca cheia, mas que nunca alimenta, que faz promessas sem exigências, que anuncia bênçãos em troca de ofertas, que mostra alarido, mas não frutos, é uma perversão da Palavra. A primeira pregação de Jesus, conforme Marcos 1.15 mostra quando de seu regresso do deserto, foi de chamar o povo ao arrependimento. Observem no livro de Atos, nos primeiros sermões da igreja primitiva, como esta palavra aparece. O cristianismo é uma chamada à correção, à vida acertada com Deus. Cristianismo não é filosofia de vida, não é festa, nem forró. Cristianismo é um compromisso com a pessoa de Cristo.

Por fim, mas não o menos importante: precisamos resgatar o conceito do sacerdócio universal de todos os fiéis. Mais uma vez tenho que reclamar do neopentecostalismo. Ele é uma lástima. Transformou a fé cristã, a vida cristã, em algo que acontece em um determinado lugar, num determinado momento, sob o comando de determinadas pessoas. Deve-se ir a um templo (muitas vezes um armazém adaptado, sem salas para educação, apenas um espaço para manipular as pessoas), num determinado dia (já temos a “sexta-feira forte”, o mesmo termo que ouvi no baixo espiritismo), sob a liderança de determinadas pessoas que “Deus escolheu para trazer libertação”. Todos somos iguais. A oração de um pastor ou de um bispo vale tanto (e, às vezes, vale menos) como a de um zelador do prédio, de um gari, de uma dona de casa. Não é a investidura em uma função que torna alguém adentrável à presença de Deus. Nem sua postura social. Chegamos à sua presença por sua graça. Pela obra de Jesus Cristo, que, no dizer de Hebreus 10.20, nos abriu um novo e vivo caminho pela sua carne. Não são nossas pretensas virtudes nem o cumprimento de regras feitas pelas igrejas, mas a graça de Deus.

Este sacerdócio universal é possível porque todos nós os que cremos em Cristo como Salvador e Senhor de nossas vidas temos o Espírito Santo, porque a igreja é a comunidade dirigida pelo Espírito, porque ele, o Espírito, age no mundo e usa a igreja para consecução dos seus propósitos. Joel anunciou o tempo da igreja, o tempo em que vivemos, o tempo da comunidade onde o Espírito está com todos e age em todos. Lembremos disto e vivamos isto. A igreja não é uma comunidade sem importância, mas é o povo do Espírito, o povo de Deus. O povo que entra em sua presença e vive diante dele com a confiança de que isto é possível graças a Jesus Cristo, nosso Salvador. Por tudo isso, não termino com Joel, mas com Paulo, em Romanos 11.36: “Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

NOTAS

1 Veja seu livro Como Ler o Antigo Testamento, editado pela ASTE.
2 Conforme Hubbard, in Joel e Amós – Introdução e Comentário (M. Cristão/V. Nova), p. 40.
3 Lloyd-Jones, Avivamento , p. 140. PES, S. Paulo, 1992.

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